Nelson Felix

Cruz na América, 1985-2004

Cruz na América, 1985-2004

O uso de materiais orgânicos e inorgânicos não é o que, para o artista, estrutura este projeto. Segundo ele, o principal nesta obra é sua construção numa escala aberta, definida não pelo espaço imediato da obra, mas pela forma – uma cruz, mediante a realização de quatro trabalhos em diferentes paisagens na América, [floresta, pampa, deserto e litoral], as quais são tratadas como matéria.

A relação com o tempo, seja o instante [no caso da fotografia], seja uma temporalidade dilatada [no processo sobre o mármore ou nos elementos vegetais], é fundamental na inter-relação estabelecida entre os trabalhos.

Estes dois procedimentos, escala-forma e tempo, criam ferramentas que visam estabelecer uma conexão entre as quatro ações. Assim, cada uma delas responde por si e, simultaneamente, sugere uma unidade.

 

Grande Budha – Floresta, 1985-2000

10º 07’ 49” S e 69º 11’ 11” W

O trabalho se utiliza de uma árvore e seu tempo, mas seu principal interesse é a

floresta. Uma árvore, neste contexto, é um igual entre iguais; a floresta é uma imensidão cheia, construída por semelhantes. Onde tudo é o mesmo, cria-se uma unidade sem referência, perde-se a escala, produzindo um espaço de ordem desnorteada.

Próximo às coordenadas 10o sul / 69o oeste, na floresta Amazônica – Acre, seis garras de latão foram fixadas em torno de uma muda de mogno. A tendência é de que a árvore absorva o metal, fazendo-o desaparecer no interior de seu tronco ao longo de centenas de anos, assim como a floresta já fez desaparecer esta obra entre as suas milhares de árvores.

Duas poéticas direcionam esta escultura: primeiro, a impossibilidade de convivência com o trabalho na dimensão de tempo, de vê-lo em sua completude (setecentos, oitocentos anos de formação); em segundo, a consciência da perda, que remete esse espaço sem referência.

 

Mesa – Pampa, 1997-1999

29º 50’ 02” S e 57º 06’ 13” W

Uma chapa de aço de 51 metros com 40 toneladas está apoiada sobre tocos de eucaliptos próximo ao paralelo 30º sul, tendo 11 mudas de figueira do mato a cada lado.

Entre 15 e 300 anos, o eucalipto apodrecerá, as árvores sustentarão e deformarão o plano da chapa, e o amálgama criado pelos elementos orgânicos e inorgânicos, o plano da paisagem.

A Mesa, como ponto oposto na cruz ao Grande Budha, difere dele e cria, com o tempo, uma referência no plano da paisagem.

 

Vazio Coração – Deserto, 1999-2003

22º 54’ 12”S e 69º 11’11”W

No deserto de Atacama, Chile, o artista utiliza, como em toda a obra Cruz na América, o tempo como matéria central. Aqui ele trata do tempo enquanto instante e, para isto, recorre ao processo fotográfico.

Seis fotos são produzidas num ponto de coordenada e direções preestabelecidas e com a velocidade da máquina fotográfica definida pelo ritmo do batimento cardíaco do artista. O longo tempo de exposição, cerca de um segundo, e a intensa luz no deserto, “estouram” as fotos. O acaso interage nesta fração de segundo e determina a visualidade das fotos.

Todas as soluções estéticas do trabalho, como local, enquadramento, velocidade e abertura, das fotos, responderam a uma decisão a priori, não determinada no local da ação, mas sim, no ateliê do artista.

 

Vazio Coração – Litoral, 1999-2004

04º 37’ 52” S e 37º 29’ 27” W

Interliga-se os dois pontos correspondentes à floresta e ao pampa gaúcho e traça-se uma perpendicular a essa reta, que é prolongada até o litoral, em busca da salinização.

Nesta coordenada é abandonada uma esfera de mármore com pinos de ferro, ao sabor da maré. Em um longo período, o ferro se expandirá, pela oxidação, abrindo o bloco esférico de mármore, assim como as fotos que estouram no deserto pelo excesso de luz. Neste eixo, os dois trabalhos (dos Vazios) se complementam

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