Nelson Felix

Método poético para descontrole de localidade – 1986-2017

 

É um trabalho sobre o espaço. Seu processo assemelha-se aos livros de poesia moderna, nos quais desenhos ou gravuras criam uma relação entre texto e imagem. Nesse sentido, esculturas, desenhos, ações, fotografias, vídeos e deslocamentos ilustram um texto, formando uma outra noção de lugar que se submete ao próprio globo terrestre.

Como expressa seu título, o trabalho visa traduzir uma ideia de espaço, simultâneo, de construção poética, que amalgamam locais por meio do desenho e de ações semelhantes. Assim como em Grafite (1986), no qual posicionava a peça de acordo com o eixo do sol, deslocando a sua posição, de uma ideia composicional com o espaço imediato, para uma posição, a priori, perfeita do universo. Aqui também, o espaço criado remete constantemente a um lugar aqui e outro acolá, ou seja, uma espécie de aqui diverso.

As quatro obras que compõem o trabalho – 4 cantos, Verso, Um canto para onde não há canto e Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares –, utilizam o espaço em sua estrutura mais simples: o canto, o verso, o centro e a direção. A esses elementos soma-se a observação multifacetada do nosso entorno atual. Existe hoje um entrecruzamento de fatores físicos e não físicos, acoplados a esse entorno tridimencional, fatores como: informações, significados, história, hierarquia, tempo, etc.. O nosso espaço atual, pelo menos em arte, não é mais tão limpo. Este trabalho (e seus a quatro atos), reúne ambientes externos e internos, mas seu interesse se encontra no duplo, no triplo, ou mesmo, nos vários significados criados no próprio sítio da exposição.

 

Descrições :

  • 4 cantos e Verso partem dos termos espaço e poesia. No ambíguo significado na língua portuguesa, com as palavras canto e verso; ora elas adquirem um sentido espacial, ora um sentido poético.
    4 cantos (2007/2008) foi realizado em Portugal, a convite da Fundação Serralves, alude à forma retangular do contorno geográfico do país. Um caminhão munck, carregado com quatro blocos de pedra (de seis a oito toneladas cada), percorre os quatro extremos do seu território. Nos três primeiros, em espaços externos, as rochas são colocadas sobre o solo e o artista as desenha incessantemente, apreendendo a forma e o entorno (a própria paisagem), que elas naquele momento marcavam. No último, já em ambiente interno, os blocos são tombados contra as paredes dos quatro cantos da sala expositiva e fixados com ponteiras de bronze onde estavam gravados oito versos do poema “Casa térrea”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Juntos, os cantos dos espaços externos, os cantos do espaço expositivo e o canto do poema se imantavam e aludiam a outra escala.

 

  • Verso (2011/2013) nasce da observação de que a cidade de São Paulo (principal centro brasileiro), encontra-se equidistante e sobre uma linha imaginária que liga duas pequenas ilhas, uma no Oceano Pacífico (arquipélago de San Juan) e outra no Atlântico (Ascensão). O artista viaja para as duas ilhas, dois opostos, dois versos – criados no globo terrestre. Nelas, coloca-se numa direção em que o olhar para o horizonte desse a volta na circunferência do planeta até alcançar São Paulo. Nesses dois locais são fincadas três peças de bronze, que remetendo à decomposição das três partes da letra A , em uma homenagem ao poeta catalão Joan Brossa e ao seu poema intitulado “Desmuntatge”. Depois, o artista desenha incessantemente até impregnar-se do local e da paisagem dessas ilhas. Em São Paulo, insere peças circulares de mármore e torna a fincar as três partes da letra A em bronze, no espaço expositivo da galeria. Em Verso, não há um espaço único, configurado em uma sala, mas sim um que remete poeticamente a uma noção espacial circular, de uma escala dilatada até a impossibilidade de percepção física, mas unida por ações similares e pela forma de uma letra.

 

  • Um canto para onde não há canto (2009/2011), feito para a cidade de Brasília, a convite do CCBB, aborda o centro como um local ausente ou onipresente. O centro está onde está o interesse, e não mais no lugar geométrico. Ele parte do princípio urbanístico de que essa cidade “central” não tem esquinas. Traça um retângulo, que envolve os dois eixos do plano diretor e construindo assim quatro cantos ao traçado. A cada um desses locais, o artista leva um vaso com a inscrição de uma das estrofes do poema “La Voce”, de Cesare Pavese, onde se encontra cultivada uma planta sensitiva, mimosa pudica (dormideira). Após tocar a planta e seguindo a sua retração, inicia uma série de desenhos, visando construir nesses locais um cantar poético, pela impregnação da poesia no ato contínuo de horas de desenho. Tudo que foi utilizado nesses quatro pontos é deixado in loco, nada de material persiste ou foi levado. Assim, nenhum objeto consta no espaço interno e expositivo, somente a referência da presença da poesia, do toque e dos desenhos, feitos e abandonados nesses quatro sítios da cidade.

 

  • Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares (1984/2017) se refere a um espaço construído por três ações e unido pelo acaso duma poesia, que usada uma única vez, no início, norteia toda a obra.

 

  • Os trabalhos de Método… são pensamentos poéticos sobre o espaço, sendo que a esse quarto trabalho se somou o atual conceito espacial de corda e com ele, acoplado, o som. No museu, um forte estiramento na sua arquitetura indica uma direção, o percurso poético realizado pelo artista no globo. No som, uma trilha sonora, feita in loco para os vídeos elaborados nas ações desse trajeto. É na reunião desses três locais, mas principalmente, onde o trabalho emerge, que recai a atenção. Nesse sítio, um duplo se cria – o museu, como, e é, um instrumento de arte.
    .. é dedicado a Mallarmé e ao seu central poema ‘Um lance de dado jamais abolirá o acaso’”, texto extraído de uma entrevista ao poeta Alberto Pucheu. Lanço um dado, com o número seis em todas as faces, sobre um mapa-múndi, em uma data e hora estabelecidas e em um local incidental do curso duma estrada. O dado, jogado, define seu acaso, não mais pela aleatoriedade do número, mas sim pela aleatoriedade de sua posição indicada sobre o mapa. Os locais do trabalho são firmados nesta ação: Cítera (ilha grega) e Santa Rosa (pampa argentino). Observo depois que vários artistas realizaram obras sobre a peregrinação a essa ilha: Watteau, Gerard de Nerval, Verlaine, Victor Hugo, Baudelaire (que muito influenciou Mallarmé), Debussy e mas recentemente Theo Angelopoulos. Como uma epígrafe, ou como uma homenagem – um vir ao caso –, defino um terceiro local, o restaurante La Closerie des Lilas, em Paris. Todos, com exceção de Watteau (precursor do tema), frequentaram esse café.

Nos três locais – Cítera, Santa Rosa e La Closerie – lanço, enterro e abandono dados de bronze e desenho compulsivamente. O trabalho é finalizado no MAM do Rio, onde uso o museu, também como um objeto, duplicando assim sua ideia de lugar. Grosso modo, poeticamente, Pucheu…, 3 locais em 2 lugares de 1 mesmo espaço.”